2014-11-30

sobre o ISIS - Parte 1 (presente)

Algures para os lados dos rios Tigre e Eufrates, numa zona que tecnicamente é parte da Síria e do Iraque, um abominável bando de inspiração religiosa está a executar uma  cruel limpeza étnica e religiosa, mesmo pelos parâmetros  de região onde a convivência nunca foi uma coisa fácil.

Mas grupos semelhantes noutras zonas do globo, mas a uma pequena escala.

É um episódio da quarta guerra mundial, travada entre o Islão e os Estados Unidos da América (se bem que multifacetada) assunto que merece alguma análise, mas não é exactamente sobre isso que vou escrever de momento.

Não faltam teorias conspiratórias que atribuem o ISIS (sigla que vou usar para designar o que também é referido por "estado islâmico", "estado islâmico do Iraque e da Síria", "estado islâmico do Iraque e do Levante") a uma criação dos EUA ou de Israel.

Como a maioria das teorias conspiratórias não tem pés nem cabeça, mas os seus defensores têm alguns pontos em que estão certos.

Na realidade o ISIS está claramente a fazer um favor aos EEUU, supondo que os americanos não fazem algum enorme disparate (o que não é impossível, mas é pouco provável).

Nota-se que o surgimento do ISIS foi algo que quase ninguém esperava e que o seu sucesso inicial foi uma prova da fraqueza e falta de preparação dos poderes na região.

Nada de novo aqui. Os movimentos fanáticos religiosos têm essa particularidade de surgirem praticamente do nada, sem quase ninguém prever, e obterem ganhos militares inimagináveis.

Foi o que aconteceu, por exemplo, com os talibãs, de que ninguém tinha ouvido falar até 1994 e em 1996 tomaram Cabul. E o que aconteceu quando surgiu Joana d'Arc, numa altura em que qualquer observador informado vaticinava o fim da França (a ser integrada na Inglaterra, tal como a Holanda e a Bélgica), surgiu sabe-se lá de onde, tem supostamente visões divinas, e em 2 ou 3 anos muda de forma inesperada o curso da História. E quando um grupo de pastores nómadas, possivelmente polvilhado de Judeus, avançou do deserto da Península Arábica para dominar uma larga fatia do que tinha sido o mundo antigo. Um fenómeno tipicamente medieval portanto.

Bem mas porque é que eu digo que o ISIS está a facilitar a vida aos americanos?

Em primeiro lugar por uma questão ideológica. Muitas forças de base laica e anti-americana terão dificuldade em defender as barbaridades feitas pelo ISIS, o que vai dificultar a sua visão da História.

Em segundo lugar por motivos religioso. Não tenho dúvida que a maioria dos que professam a fé islâmica e vivem fora do médio oriente, juntamente com a maioria dos sunitas que vivem no médio oriente têm admiração pelo ISIS. Afinal até parece que os Islão está a ganhar o que num registo muito simples joga bem com as previsões do Corão para o fim dos tempos.

Alguns teóricos do Corão bem vão vir a terreno argumentar que é uma interpretação demasiado literal do texto, mas terão dificuldade em explicar como é que chegaram a essa conclusão. Afinal muitas das ideias e actos do ISIS estão bem de acordo com o que vem escrito de modo muito claro e dificilmente aberto a interpretações. E se começamos a interpretar o texto ao sabor das opiniões e ocasiões onde vamos parar? De qualquer maneira o ponto é que os crentes de base estão a gostar do ISIS.

Na realidade o ISIS é um tigre de papel. O seu domínio tem base territorial na zona predominantemente sunita, vagamente  do norte do Iraque e de parte da Síria  (excluindo a zona mais montanhosa e/ou a NE e ponta S do Iraque onde também existem sunitas, mas os sunitas errados). Note-se que esta zona é fundamentalmente desértica e pouco habitada.

A sua base de recrutamento tem sido as populações sunitas, nessas zonas e arredores, o que inclui muitos antigos militares do regime de Saddam Hussein e muitos dos que tinham prestado juramento a Osama bin Laden, mas vêm agora uma melhor oportunidade. Junte-se muitos sunitas iraquianos que se ressentem de terem perdido a posição de privilégio que tinham antes do americanos terem invadido o país. e que goram perderem para os tangencialmente maioritários xiitas. E alguns sauditas. Sim muito medieval.

O seu principal financiamento tem sido, bem em primeiro lugar o saque, nomeadamente da populações, das instituições, o o que apanharam  das tropas que desertaram do Iraque. Fonte importante de financiamento é a venda de petróleo no mercado negro. Mas suspeito que a principal financiamento vem de cidadãos prósperos das prósperas monarquias do Golfo que dão dinheiro para as caridades para o fim de obterem um lugar no paraíso, com as respectivas mordomias.

O dinheiro das caridades segue um caminho quem nem consigo perceber, grande parte acabará certamente nas madrassas religiosas onde servirá para fazer a lavagem ao cérebro aos jovens. Mas a maior parte será muito provavelmente para comprar armas e alimentar as acções bélicas.

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